Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste desabafo. Vim ver a sepultura da velha árvore e percorrer a via sacra. Encontrei tudo como deixei o ano passado, quando da primeira de muitas edições desta terra. Apenas vi mais fome, mais ignorãncia, mais desespero. Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos. O social juntou-se ao natural, e a lei anda de mãos dadas com o suão a acabar de secar os olhos e as fontes. Crestados e encarquilhados, os rostos dos velhos parecem pergaminhos milenários onde uma pena cruel traçou fundas e trágicas lendas. Na cara lisa dos novos pouca esperança há. Ora eu tento ser escritor e compositor, como sabes. Poeta, orquestrador, prosador, é na letra e na fusa redonda que têm descanso as minhas angústias. Mas nem tudo se imprime ou se toca. Ao lado da sinfonia ou do romance que a máquina estampa e ouve, fica na alma do artista a condição de homem gregário, que comigo partilhas. E foi por isso que fiz aqui uma promessa que te transmito: Que estava certo de que tu, habitante dos nateiros da planície, terias em breve compreensão e amor pela sorte áspera destes teus irmãos. Que um dia virias ao encontro da aridez e da tristeza contidas nas suas fragas, não como leitora do pitoresco ou do estranho, mas como sensível criatura tocada pela magia da arte e chamada pelos imperativos da vida. Prometi isto porque me senti humilhado com tanto surro e com tanta lazeira, e envergonhado de representar o ingrato papel de cronista de um mundo que nem me pode ler ou ouvir. Tomei o compromisso, em teu nome, o que quer dizer em nome da própria consciência colectiva. Na tua ideia, o que escrevo, como por exemplo estes desabafos, é para te regalar e, se possível for, comover. Mas quero que saibas que ousei partir desse regalo e dessa comoção para te responsabilizar na salvação da casa que, por arder, te deslumbra os sentidos. Eterna amante do desconhecido!
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